Quem são eles? Quem somos nós?
Silmara Rascalha Casadei*
A vida em na infância e na juventude palpita, cheia de vigor, de expectativas, expressando-se em olhares brilhantes e ritmos de desenvolvimento. Cada fase nos revela um aprendizado, descortinamos uma beleza diferente, uma nova alegria e novos sonhos.
Quando mergulhamos mais profundamente em nossos papéis de pais e professores, verificamos a importância dessas crianças e jovens em nossas existências. No percurso, a parceria estabelecida entre família, escola e sociedade torna-se imprescindível na formação destes seres humanos que caminham conosco de mãos dadas.
Quando os pais olham profundamente seus filhos perguntam-se: Quem são eles verdadeiramente? Que talentos trazem em suas mãos?
Os professores, também se perguntam: O que essa geração traz consigo? O que guardam no peito, no sentimento ou no pensamento que se constituirão como atitudes logo mais adiante?
Quem são eles? De maneira milagrosa, todas as crianças e jovens guardam o futuro. Não têm ainda consciência do que realizarão. Mas a força está lá neles, palpitando, expandindo, reluzindo, gerando novas possibilidades.
Que vínculos farão?
Todos os estudos da psicologia e psicanálise, todas as teorias da educação já comprovaram que os processos da aprendizagem ocorrem a partir dos vínculos que são estabelecidos. Não sabemos tampouco quando ou quem promoverá a conexão para que eles se estabeleçam , afinal, algumas relações vinculam, outras não. Entretanto, já sabemos, pela ciência, que o estabelecimento se dá a partir da constituição de uma matriz afetiva que liga redes do cérebro à memória possibilitando aprendizagens.
Brazelton&Greenspan, respectivamente, pediatra e professor emérito da faculdade de Medicina de Harvard e psiquiatra e professor da Universidade de Medicina George Washington, além de grandes pesquisadores da infância assim relatam:
As emoções são na verdade os arquitetos, os condutores ou os organizadores internos de nossas mentes. Dizem-nos como e o que pensar, o que e quando dizer e o que fazer. Nós aprendemos coisas através de nossas interações emocionais e então aplicamos aquele conhecimento no mundo cognitivo.”( in: As necessidades essenciais da Infância).
Num estudo que fizeram sobre o contato de bebês com adultos em creches, escolas ou lares de muitos países, em especial, um país lhes chamou a atenção:
“A maioria das outras culturas não colocam tanto as crianças no chão para brincar sozinhas quanto nós fazemos para que tenham autonomia. Eles carregam as crianças junto, todo o tempo, enquanto se dedicam a seus afazeres. Na Coréia, carregam os bebês nas costas não interagindo muito com elas naquela posição é bem verdade, mas o objetivo talvez seja diferente. Em vez de tornarem os filhos independentes, preferem cidadãos estáveis, tranqüilos, felizes que tenham consciência dos outros à sua volta.”
Com essas premissas nos perguntamos:
Quem somos nós? Qual é o nosso real papel na vida de nossas crianças e jovens? Qual é o sentido de tudo que lhes ensinamos? Como atrelar tantos objetivos de nossa época ao pequeno espaço de tempo que temos com eles? Como ensiná-los a amar as pessoas, o conhecimento, as boas atitudes?
Nossa geração tem sido o resultado de muitas que passaram. Inventamos, constituímos, aprendemos, ensinamos, avançamos por demais, derrubamos barreiras, levantamos e derrubamos muros. Entretanto, não contentes com as desarmonias que persistem entre nós humanos, também resolvemos nos desarmonizar com o lar em que habitamos, ou seja, nosso planeta. Nos últimos 50 anos devastamos matas, exterminamos espécies e poluímos mais que todas as outras gerações em quase 100 mil anos de história.
Quem somos nós?
Sim, precisaremos de um bom conhecimento de nossos potenciais, de nosso “ser afetivo”, de nossas possibilidades, de nossas Inteligências ou “combinações delas” como diria Gardner, para estabelecermos novas parcerias e relações na incrível viagem que deve descortinar o bem-comum.
Quem somos nós? Talvez, para responder a essa pergunta, precisaremos de um minuto a mais, numa tentativa de harmonia com o tempo, para nos encontrarmos por meio dos nossos olhares, dos nossos abraços, das trocas de nossos saberes, das nossas experiências de vidas.
Talvez, precisaremos trazer o “inédito viável”, como diria Paulo Freire, que é a capacidade de nos percebermos pessoas capazes de constituir o novo que, ao mesmo tempo, é respeitoso com a tradição. Percebermos também o outro para, mais que descobri-lo, também senti-lo para ter com ele um cuidado equilibrador no que diz respeito ao cuidado físico, emocional e educacional.
Quem são eles?
Será que descobrirão a cura da AIDS, do câncer e de moléstias que assolam o planeta? Comporão novas músicas? Descobrirão a resolução para o aquecimento global? Trarão novas viabilidades para a paz? Compreenderão novos fenômenos? Pintarão novos quadros ou escreverão novos poemas? Aprenderão a utilizar melhor o tempo no compromisso de desenvolver todas as faces necessárias da própria personalidade? Amarão mais, terão mais alegria, serão saudáveis mentalmente, emocionalmente e fisicamente?
Afinal, quem são eles, quem somos nós?
Conjugando na prática o verbo esperançar talvez respondêssemos:
-Avante, uma nova paisagem nos espera e no caminho saberemos quem somos nós por tudo que fizermos!
Conjugando na prática o verbo fecundar, talvez respondêssemos:
- Plantemos, em cada atitude, a possibilidade de um futuro possível.
E, conjugando na prática, o verbo refletir, perguntaríamos novamente:
- Quem são eles, quem somos nós?
Talvez, percebêssemos que eles e nós somos uma bela rede interligada e interdependente.
E a resposta viria da simplicidade cooperativa de Freinet - grande educador francês:
- Entre os nós e eles, já não estamos mais sós!
*Silmara Rascalha Casadei — é paulista, casada e tem dois filhos apaixonantes: Juliana e Carlos. Foi professora da educação infantil e do ensino fundamental durante muito tempo: depois, foi coordenadora pedagógica e, agora, é diretora de escola. Sua paixão por ler e escrever começou quando foi alfabetizada, aos 6 anos. De lá para cá, não parou mais... Aos 12 anos já havia lido toda a Coleção Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. Hoje é membro da Academia de Letras da Grande São Paulo, mestranda e participante do “Grupo de Pesquisadores em Educação: Currículo – Questões Atuais”, na PUC/SP. Já publicou livros infanto-juvenil, entre os quais, ‘A Menina e seus Pontinho’s, ‘Chinelinhos brasileiros’ e, em parceria com o professor Nilson José Machado, escreveu a ‘Série Seis Razões’ – livros de educação ambiental. Em parceria com Mario Sergio Cortella, escreveu ‘Qual é a Pergunta?’

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